sábado, 21 de novembro de 2009


Amor não se pede

Se implorar resolvesse, não me importaria. De joelhos, no milho, em espinhos, agachada, com o cofrinho aparecendo. Uma loucura qualquer, se ajudasse, eu faria com o maior prazer. Do ridículo ao medo: pularia pelada de bungee jump. Chorar, se desse resultado, eu acabaria com a seca de qualquer Estado, de qualquer espírito.

Mas amor não se pede, imagine só. Ei, seu tonto, será que você não pode me olhar com olhos de devoção porque eu estou aqui quase esmagada com sua presença? Não, não dá pra dizer isso. Ei, seu velho, será que você pode me abraçar como se estivéssemos caindo de uma ponte porque eu estou aqui sem chão com sua presença? Não, você não pode dizer isso. Ei, monstro do lixo, será que você pode me beijar como um beijo de final de filme porque eu estou aqui sem saliva, sem ar, sem vida com a sua presença? Definitivamente, não, melhor não. Amor não se pede, é uma pena.

É uma pena correr com pulinhos enganados de felicidade e levar uma rasteira. É uma pena ter o coração inchado de amar sozinha, olhos inchados de amar sozinha. Um semblante altista de quem constrói sozinho sonhos. Mas você não pode, não, eu sei que dá vontade, mas não dá pra ligar pro desgraçado e dizer: ei, tô sofrendo aqui, vamos parar com essa estupidez de não me amar e vir logo resolver meu problema? Mas amor, minha querida, não se pede, dá raiva, eu sei.

Raiva dele ter tirado o gosto do mousse de chocolate que você amava tanto. Raiva dele fazer você comer cinco mousses de chocolate seguidos pra ver se, em algum momento, o gosto volta. Raiva dele ter tirado as cores bonitas do mundo, a felicidade imensa em ver crianças sorrindo, a graça na bobeira de um cachorro querendo brincar. Ele roubou sua leveza mas, por alguma razão, você está vazia. Mas não dá, nem de brincadeira, pra você ligar pro cara e dizer: ei, a vida é curta pra sofrer, volta, volta, volta. Porque amor, meu amor, não se pede, é triste, eu sei bem.

É triste ver o Sol e não vê-lo se irritar porque seus olhos são claros demais, são tristes as manhãs que prometem mais um dia sem ele, são tristes as noites que cumprem a promessa. É triste respirar sem sentir aquele cheiro que invade e você não olha de lado, aquele cheiro que acalma a busca. Aquele cheiro que dá vontade de transar pro resto da vida.

É triste amar tanto e tanto amor não ter proveito. Tanto amor querendo fazer alguém feliz. Tanto amor querendo escrever uma história, mas só escrevendo este texto amargurado. É triste saber que falta alguma coisa e saber que não dá pra comprar, substituir, esquecer, implorar. É triste lembrar como eu ria com ele. Mas amor, você sabe, amor não se pede. Amor se declara: sabe de uma coisa? Ele sabe, ele sabe.

(tati bernardi)

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

quinta-feira, 19 de novembro de 2009


Últimos segundos

Não deixe quebrar, não deixe romper, não deixe virar grafite envelhecido e esquecido como qualquer contrato sem alma. Corra e cole os pedaços, corra e segure meus pés no chão porque eu estou quase voando, ou me faça voar novamente com você. Por favor, não espere o sanduíche ou a festa do ano, não espere a minha próxima assoada de nariz e a minha cara assustada perdida na sua ausência. Venha logo, traga de volta a minha certeza, não deixe, por favor, não deixe. Não espere o horário do trânsito livre, não espere ouvir o que você não quer, não espere a vida dar merda para colocar a culpa na vida. Eu ainda estou aqui por você, limpa, ilesa, sua. Mas cada milímetro do meu corpo me implora por vida, por magia, por encantamento. Por favor, me roube, não deixe, não esqueça do nosso pacto em não ser mais um daqueles casais que não conversam no restaurante e reparam tristes nos outros. Outro dia ouvi mais uma das músicas das quais me trazem você, e lembrei tanto que eu te amava, o tanto que te amo. Eu preciso que você me lembre de que eu não preciso de mais nada, que mais nada é tão perfeito e que podemos ser um casal imbatível. Caso tudo isso seja um trabalho inconsciente para me perder, parabéns, você está conseguindo. Mas se ainda existir dentro de você alguma esperança, eu preciso demais que você me abrace e me faça sentir aquilo novamente. É fácil, basta você querer, eu ainda quero tanto. Venha agora, não espere o músculo, a piada, o botão, o calo, a saudade, o arrependimento, o vazio. Eu preciso sentir que você ainda sente, eu preciso que o seu coração dê um choque no meu, eu preciso saber que seu peito ainda aperta um pouco quando eu vou embora e se espalha como borboletas nas veias quando eu chego. Tudo o que eu quero, quando ele me olha sem pressa e sorri nervoso sem saber porque a gente procura se perder, é que você desligue o DVD e me diga que esse filme é batido e não tem final feliz. Eu quero que você grite dentro da minha cabeça que não precisamos disso e que, por alguma razão, quando a gente se afasta a dor é maior do que todo o mundo que nos espera. Eu ainda preciso que você me ache bonita, se surpreenda, me comemore e esqueça um pouco de todo o resto pra se encantar sem medo do tempo. Não me tire a razão, não me tire a honra, não me faça estragar tudo só para sentir o vento na cara de novo e a música alta. Berre e assopre em mim enquanto é tempo.

Venha agora, ganhe a corrida, passe todo o resto pra trás, é você quem eu continuo esperando na linha final.

(tati bernardi)

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Você aumenta o I-pod até quase estourar os tímpanos. Aumenta a carga até quase estourar os joelhos.
Seu prazer em estar viva não basta e você toma aquelas químicas da felicidade prescritas pelo psiquiatra ou por algum amigo que freqüenta raves.
Seu cabelo não basta e você estoura ele até ficar igual ao da menina da novela.
E você aumenta as horas de corrida conforme aumenta a sua idade.
E aumenta os amigos oba-oba porque descobre que quase nunca tem amigos de verdade quando realmente precisa.
E aumenta os casinhos e diminui o amor.
E arregala os olhos para dar conta de ver tudo e saber de tudo mas continua acordando com aquele vazio.
E o mundo te acompanha ou você acompanha o mundo.
E as escadas rolantes e os elevadores fazem de conta que tudo bem você não saber mais como andar com suas próprias pernas.
E os comerciais berram muito na TV porque ninguém escuta mais nada.
E seus amigos, casinhos e até o cabeleireiro só falam de si próprios e você não escuta mais nada porque está louco para chegar a sua hora de falar de si próprio.
Você está nas alturas, no topo, no seu melhor. Mas se sente devendo ao mundo. Pouco. Preguiçoso. Menos.
Suas funções estão no limite humano. Mas se pudesse, você compraria mais memória pro cérebro e mais bateria pro coração.
O que você não pode ter naturalmente, compra. O que não pode fazer ou falar, usa. O que não pode sentir, imita. O que não pode viver, inventa.
E assim você se renova mecanicamente, a casa fase. Como um computador que vira G3, G4, G200.
Mas um dia, depois de não agüentar mais uma vida de vitrine e pessoas querendo barganhar a sua existência, você descobre que não existe nada melhor do que mandar tudo isso para aquele lugar.